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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sentindo nada.

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor,nem fogo não
vai dar mais pra chorar nem pra rir
Socorro, alguma alma mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada

Socorro, alguém me dê um coração

que esse já não bate nem apanha
E por favor é uma emoção pequena, qualquer coisa
Qualquer coisa, que se sinta
Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva

Socorro alguma rua que me dê sentindo

Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro eu já não sinto nada, Nada.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Onde fica Pasárgada?

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho o homem que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone à vontade
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei o homem que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

quinta-feira, 13 de maio de 2010



Qual é o segredo?

sábado, 2 de janeiro de 2010

Vidro

Era uma vez um vidro: límpido, fabricado com todo carinho e esmero. Feito especialmente para enfeitar tal parte daquela casa. Só que ,como todo vidro ,era transparente, absorvia tudo, além de ser marcado com dedos das pessoas que passavam ali, algumas se encostavam e só depois se davam conta de que estavam manchando-no.
Os donos da casa, e consequentemente do vidro, estavam sempre ali, para limpá-lo e alertar as pessoas para terem mais cuidado com o objeto que fora caro.
Mas parecia que o vidro tinha vida própria: mesmo com toda a dedicação, vez ou outra o vidro se sujava e ficava todo manchado. Vieram os primeiros arranhões... Mesmo sendo consertado, o vidro não seria o mesmo...
E assim, vez ou outra vinha alguém e arranhava o vidro...até que certa vez o quebraram.
Que desespero! Aquele vidro raro todo espatifado no chão...E o culpado nem para arcar com o prejuízo, quem teve todo o trabalho foram os donos. Os donos e um certo rapaz, que nunca havia chegado perto do vidro e a primeira vez que o viu foi naquelas condições... mesmo assim, o rapaz achou o vidro muito bonito e se propôs a ajudar. Mandou consertá-lo se caso os donos aceitassem sua ajuda. E foi aceita.
O rapaz foi ganhando a confiança dos donos do vidro, que ficaram felizes em saber que ainda existiam pessoas bondosas no mundo. E o vidro estava sendo consertado com sucesso. Apesar de não ser mais aquele, pois agora quem o visse, veria algumas partes coladas, mas eram só pequenos detalhes. Só quem vira o vidro vindo de fábrica perceberia a real mudança que ele sofrera.
Só que o rapaz que ofereceu ajuda já tinha experiência em carregar vidros, e certa vez deixou cair um. Ficou traumatizado e prometeu não mais carregar vidro algum, só ajudar a consertá-los.
O vidro estava finalmente consertado, todos felizes porque o vidro voltaria a seu lugar na casa. O rapaz ficou temeroso em carregar o vidro até a casa, explicou a situação aos donos, mas eles não quiseram saber: queria a ajuda do rapaz p/ carregar o vidro e levá-lo finalmente p/ casa. O rapaz, mais uma vez hesitou e disse que não conseguiria carregar o vidro...os donos ficaram chateados, mas nada podiam fazer. Trouxeram o vidro p/ casa eles mesmos. Ainda assim se questionavam porque o rapaz  que se encarregara de ajudar  de bom coração na hora de levar o vidro p/ casa , que seria o grande momento, desistiu. Estranho. Mas é que o rapaz tinha medo de pegar o vidro, que era incrivelmente especial e diferente e ao invés de levá-lo p/ casa dos donos, levar p/ a própria casa... foi assim que ele acabou se machucando.

O rapaz sumiu. Mal sabe ele que quando os donos foram colocar o vidro no seu devido lugar, uma mão a mais faltara, a qual seria tão necessária naquele momento, para dar mais firmeza ao serviço, que o vidro acabou escorregando e se espatifou no chão de novo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ano novo, tudo de novo

De volta a aliança.
A falta de esperança.
A insegurança.


De volta as promessas.
As controvérsias.
As antipromessas.


De volta a vida normal.
A mente paradoxal.
A esse peso colossal.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Reencontro

"Nunca pensei que me fosse acontecer algo do tipo. Não sei se foi sorte ou extremo azar. Ter te encontrado depois de tanto tempo e o destino ter decidido que só nos amaríamos como homem e mulher depois de estarmos separados...sinceramente, não sei o que foi aquilo.
Quando o destino impõe um reencontro dessa espécie, fico a pensar o porquê. Mas desta vez não. Pelo simples fato de querê-lo como nunca. E aconteceu.
No tempo em que estávamos juntos, nunca nos sentimos como nesse dia. Nunca tinha sentido teu corpo no meu ou ouvido teus gemidos com tanta intensidade.

Ocorreu de eu ir ao lugar que nos era comum. Te vi. Gelei. Tremi. Dessa vez não fugi ou desviei o olhar: continuei te encarando e seguindo em sua direção. Para minha surpresa, você nem se movei dali.
Teria a chance de fazer o que nunca fiz. Você estava ali, à minha frente.

Cheguei perto, mais perto,e , ao invés daquele frio de antes, me veio um calor ardente e pensei: por que não?
Fui mal intencionada, e pelo 'efeito' que teve, foi infalível. Tu percebeste na hora. Devia estar no meu jeito de andar, de te abordar, no olhar.
Meus olhos se encontraram com os seus; aqueles olhos que eu tanto admiro. Nada disse. Os olhos faziam a vez da voz.

Sei de meus encantos e pela primeira vez os usei com más intenções.
Encostei minha boca perto de tua nuca e sussurei algo em teu ouvido. De primeiro, você hesitou. Mas eu sou tentação, amor. Não precisou muito e já estávamos aos beijos.

Beijo voraz, violento, pecaminoso ( estávamos ambos cometendo traição), delicioso. Nele tinha tudo: tempo, saudade, vingança, libertinagem. Principalmente libertinagem.
É claro que os beijos pediam mais. E eu queria mais. Tua vontade não importava.

Um lugar? Que lugar? Lugar...banheiro. O levei. Nos levamos.
Banheiro deserto e escuro. Ninguém nos acharia ali. Mesmo assim ainda corríamos algum perigo... Pimenta .Afrodisíaco.

Nos devoramos. Esse foi o verbo. Outro não caberia aqui.
Foi devassador do primeiro beijo ao último gozo. Tinha momentos em que você parava pra me observar. Tu não me reconhecia...Tu não me conhecia. Tu não me conhece. E eu ali, altiva, saboreando a vitória enquanto você se perdia.

Beijos, mãos, línguas, membros, sabores, sons...

Já tava me vestindo e você ainda encostado na parede do banheiro, ofegante.
Me olhei no espelho, me ajeitei, passei meu gloss e já tava saindo - assim como uma puta sai depois que acaba o serviço - quando tu, em meio as palavras sem fôlego, começa a falar:
- Seu número ainda é 8...
- Não me ligue. Não sou nada sua.
- Mas...
- Me esqueça. Vim aqui me despedir do pessoal, to indo embora da cidade.
- Não me procure. Não quero nada contigo.
Saí, fechei a porta e o deixei lá, no breu, perdido e confuso.

Estava feliz. Tinha conseguido realizar meu feito. Só não saberia dizer até quando."

Fiquei tão extasiada com a estória de Amélie que nem percebi que a carta estava toda borrada de lágrimas.

domingo, 4 de outubro de 2009

Doa-se


"Menina doa coração pequenino, porém pesado, carregado de dores e rancor.
Não se espera um transplante, o que ela quer é realmente doar seu coração machucado a alguém, se duvidar, ela até recompensa quem estiver disposto a ter este fardo nas mãos. Nas mãos, ou na geladeira, menos em seu próprio corpo, a intenção da garota é somente livrar-se desta bomba pulsante.
A menina vem sofrendo consequências desastrosas por habitar um coração deste tipo: desde aumento de peso a mudança radical de humor e conduta além de considerável baixa na auto-estima.
Esta imagem é para mostrar a vocês, leitores, como o miocárdio ,entre
outras partes, está danificado. Além do mais, seu músculo cardíaco já quase não ejeta mais sangue, quase não pulsa. Porém, pode ocorrer do coração acelerar demais - risco eminente de infarto - devido às más lembranças e suas sequelas ( ex. ódio, asco, indiferença, extrema frieza e nostalgia). Quando estes episódios se dão, o coração enlouquece: as válvulas se abrem de vez e corre sangue venoso do lado direito para o coração inteiro! Como o ventrículo e a aurículas esquerdas vão bombear oxigênio (sangue arterial) para esta garota? Ela fica, literalmente, sem respirar e o veneno escorre-lhe pelos olhos...Leitores, a situação é grave!
Também é válido ressaltar que o responsável por infringir tal coração está passível de punição por danos morais e físicos e que a vítima já entrou com o processo na 1ª Instância do STJ e (se caso for preciso) não desistirá até chegar ao Tribunal Supremo.
Se a vítima chegar a óbito, o réu será acusado de homicídio culposo (punição inafastável) com reclusão de 6 a 20 anos."
Esta menina precisa com urgência de uma cirurgia! Antes que ela sofra uma necrose!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ambição


Diálogo entre Mary e Anne Boleyn.
"- Você está sempre apaixonada - Disse Ana com irritação. - Parece numa grande bola de manteiga, sempre gotejando amor por um ou por outro. Antes foi o rei e conseguimos nos dar bem. Agora é a filha dele, o que não vai nos adiantar nada. Mas você não liga. É sempre a mesma coisa: paixão, sentimento, desejo. Isso me deixa furiosa.
Sorri para ela.
- Porque você é só ambição - eu disse.
Seus olhos faiscaram.
- É claro. O que mais existe?
Henry Percy pairava entre nós, palpável como um fantasma.
- Não quer saber se o vi? - perguntei. Foi uma pergunta cruel e a fiz querendo ver dor em seus olhos, mas minha malícia não surtiu efeito. Sua expressão foi dura e fria, como se tivesse parado de chorar por ele e nunca mais fosse chorar por um homem.
- Não - replicou. - De modo que pode dizer-lhes que nunca mencionei seu nome. Ele desistiu, não desistiu? Casou-se com outra mulher.
- Achou que o tinha abandonado - protestei.
Olhou para longe.
- Se fosse um homem decente teria continuado a me amar - disse ela, a voz ríspida. - Se fosse o contrário, eu jamais teria me casado enquanto meu amante estivesse livre. Ele cedeu, deixou que eu partisse. Nunca o perdoarei. Está morto para mim. Posso estar morta para ele. Tudo o que quero é sair deste buraco e retornar à corte. Tudo o que me restou foi ambição."

Trecho do livro "A irmã de Ana Bolena", de Philipa Gregory.